Estamos vivendo a chamada era da informação, onde cada vez mais as máquinas se tornam parte fundamental de nosso dia-a-dia, tanto nas questões profissionais, quanto nas relações mais pessoais e íntimas – basta ver o sucesso das redes sociais, todas amparadas pelos mais diversos gadgets eletrônicos.
Muitos livros e filmes – como 1984, 2001 uma Odisséia no Espaço e Blade Runner - traçaram um futuro sombrio por conta de nossa dependência cada vez maior às máquinas, mas pelo menos até o momento grande parte daquelas ameaças ainda não se transformou em realidade. E porque será que isso não aconteceu?Acredito que por um motivo muito simples. Se por um lado ficamos fascinados por estes incontáveis aparelhos que invadiram nossas vidas, por outro, temos buscado cada vez mais (inclusive através deles) nosso lado mais humano com essa necessidade de contato freqüente e permanente com o outro. Não é por acaso que talvez o maior ícone da indústria moderna seja Steve Jobs.
Um mito se constrói através de histórias (verídicas ou não), e principalmente de fatos. Com Jobs não é diferente, mas o que impressiona em sua trajetória é a admiração e respeito que conseguiu de concorrentes, dos amigos, dos inimigos, do mundo inteiro.
Com um modelo de direcionamento que mistura a arte intransigente e um soberbo talento para negócios, de forma peculiar e de difícil reprodução- “Job pegou seus interesses e os traços de sua personalidade – obsessão, narcisismo, perfeccionismo, e transformou-os nas marcas registradas de sua carreira” - sendo considerado , por vários de seus seguidores, um elitista que considera quase todas as outras pessoas medíocres.Talvez por esta mentalidade faz gadgets tão fáceis de usar por qualquer um, fortalecendo o design , não como um apetrecho, mas como arte.
Seu nível e valorização ao detalhe e perfeccionismo, fez enlouquecer muitos de seus subordinados, dado o grau de sua exigência pela excelência, provocando-os a resolver problemas incrivelmente complexos através de soluções que fossem percebidas como inevitáveis e muito simples, de modo que as pessoas não percebam como a coisa foi difícil.
O foco e a obstinação em aproximar todos os tipos de pessoas, das mais sofisticadas as mais simples, de seus produtos, dando acabamento refinado e ao mesmo tempo utilitário aos mesmos, revelam sinais que podem nos desvendar o lado humanitário de Jobs.
Sob seu comando a Apple se transformou num caso único de empresa que conseguiu altíssima exposição espontânea mundial principalmente nos últimos anos, sem gastar quase nada em publicidade. Além disso, seus aparelhos se transformaram em símbolos de uma geração (a tal Y), pouquíssimo apegada a marcas, seja pelo status, pela tecnologia ou pelo design ou por tudo isso junto, os jovens hoje fazem questão de circular por aí exibindo a “maçazinha”, o que mostra a capacidade de Steve em avaliar, como pouquíssimos, as tendências de mercado e do comportamento dos consumidores.
Sua veia empreendedora e sua capacidade de gestão são inegáveis, mas aparentemente o que mais fascina em seu perfil é seu outro lado, mais humano, mais sensível, mais preocupado em como criar produtos realmente inovadores que atenderiam as necessidades que muitas vezes ainda não tinham aflorado e sua vontade de tornar as pessoas mais felizes, como disse certa vez. Talvez por isso depois que se afastou da Apple em 1995, ele comprou a Pixar (por U$ 10 milhões, para vender dez anos depois por R$ 7, 4 bilhões) e lá em parceria com a Disney criou alguns dos mais belos e modernos desenhos para essa nova geração de jovens (e de seus pais que se divertem tanto quanto eles nos cinemas) como Toy Story e Monstros S.A. entre outros.
Ele retornou em 1997 para salvar a Apple da falência e criou os produtos que viraram referência em mobilidade e catorze anos depois a empresa se transformou na mais valiosa do planeta.
Jobs encantou platéias pelo mundo inteiro com seu sorriso contido, suas calças jeans, suas blusas pretas, seus envelopes que guardavam revoluções e sonhos, sua capacidade de entender as necessidades das pessoas, por vezes antecipando seu entendimento e desejo de solução. E, acima de tudo, por sua paixão, que provoca a obstinação pela excelência em tudo que se propõe a fazer.
Steve Jobs pode até não ser um referencial na habilidade de relação com pessoas, mas entende, como ninguém, quando o assunto é a realização de seus desejos e sonhos mais utilitários. Opiniões pessoais à parte, é inegável que Jobs se consolidou em uma marca de grande valor.
“Seja um padrão de qualidade. Algumas pessoas não estão acostumadas a um ambiente onde se espera a excelência.” Steve Jobs.
Gilberto Alves da Silva
(Diretor da CSRH, Mestre em Administração pelo IBMEC, professor de graduação e pós, um dos autores do livro Gestão Estratégia de Serviços e espectador assíduo dos desenhos da Pixar)